citação livre de um directo televisivo:
jornalista, interrompendo a explicação sobre os números de mortos na estrada, pegando habilmente numa palavra utilizada pelo entrevistado:
“Por falar em números, ali na conferência de imprensa houve muitos números que parece não dão certo, tem algum comentário?”
Pouco depois, após a explicação que – arrisco – a jornalista não percebeu, conclui assim:
“… dos 665 dias do ano passado, só em 56 não houve vítimas mortais.”
A sede de polémicas dos jornalistas portugueses surpreende-me sempre, cada vez mais. Não há notícia sem polémica, e sem polémica não há notícia. E a culpa parece ser sempre do governo. É como se a única maneira de provar a sua independência em relação ao governo fosse antagonizá-lo a cada passo.
Desta vez é a maneira como se contam os mortos. Alguém descobriu que os indicadores contabilizam só as perdas de vida até à entrada nos hospitais. De repente, é como se o governo estivesse a manipular os números para baixar os índices de sinistralidade. É certo que a credibilidade dos políticos anda tão em baixo – muito por este tipo de “notícias” – que até é fácil imaginar que os esforços da G.N.R. e das ambulâncias do I.N.E.M. em prestar rapidamente os socorros e transportar os feridos graves velozmente para os hospitais deve-se à interferência do governo com o intuito único de baixar esses índices.
Mas será que o jornalista se lembrou de ir ver como são computadas as mortes na estrada nos outros países? Ou de verificar se havia alguma razão para que esse cálculo seja feito assim?
De acordo com o entrevistado do directo televisivo acima citado, o número de mortos na estrada é calculado assim há 70 anos e é apenas um de vários indicadores da sinistralidade – sendo outro o número de mortos após 30 dias (cito de memória). Ora, o facto de ser calculado há 70 anos da mesma maneira é essencial.
Mais do que sugerir a manipulação dos números “para ficar melhor” nas estatísticas, a implicação mais grave desta “notícia” acerca da forma de calcular seria a de lançar a dúvida acerca do progresso (ou retrocesso) dos valores em relação aos anos anteriores. No entanto, a comparação dos indicadores parece manter-se fiável… e infelizmente 2007 foi pior que 2006.
Se os números são calculados da mesma maneira há 70 anos, porque é que foi notícia este ano? Porque é que se arrisca a desacreditar toda uma série de indicadores? Porque é se perde tempo precioso a discutir este assunto? Porque é que nos distraímos daquilo que é realmente importante – que seria diminuir a sinistralidade na estrada – inventando uma notícia supérflua?
É que mesmo que fosse verdade que os números tivessem sido calculados de maneira diferente, haveria tempo para lançar este escândalo daqui a uma semana ou duas. Transformando-o num verdadeiro escândalo - fundamentado, independente, identificando os responsáveis. Mas mantendo a atenção nesta altura para a essencial realidade que são os altos níveis de sinistralidade em Portugal.
E para que é que eu me dei ao trabalho de escrever este texto? Este texto serve para ilustrar o declínio de uma classe – a dos jornalistas. A credibilidade jornalística em Portugal está em queda livre e esta quebra de confiança é, em minha opinião, mais grave que a desconfiança a respeito dos políticos.
O jornalismo deve ser o mais independente possível, não deve ter uma agenda política, mesmo se os meios de informação (jornais, televisões) a possam ter. Acima de tudo deve ser competente e ético.
Não é um equilíbrio fácil, a linha entre a informação livre e a opinião livre é ténue, por isso é preciso marcá-la a cada passo.
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Manoel de Oliveira Aniki-bóbó :
«
Eduardo:Aniki-bébé / Aniki-bóbó / Passarinho Tótó / Berimbau, Cavaquinho / Salomão, Sacristão / Tu és Polícia, Tu és Ladrão
Carlitos: Mas eu não quero ser ladrão!
O resto da canalha, gozando-o: Tu és ladrão, tu és ladrão!»parte daqui parte de memória
(se não é assim podia muito bem ter sido)
O cartoon de um muçulmano com um turbante em forma de bomba e a Shahadah nele inscrita é no mínimo preconceituoso, o QeP explica bem porquê, o 2DdC mostra-o relacionado com outros cartoons, que levaram a desastres maiores. Conheço muitas pessoas verdadeiramente preconceituosas e até me dou bem com algumas. Não tenho preconceitos contra essa gente. A questão será saber quando é que o preconceito passa a insulto, e o insulto passa a incitação ao ódio.
Creio que aos olhos ocidentais, a maior parte dos 12 cartoons são suficientemente inócuos para que a carga preconceituosa tivesse passado desapercebida inicialmente. Quero até acreditar que os cartoonistas tenham utilizado o estereótipo [os estereótipos são muitas vezes generalizações baseadas em preconceitos] para atingir um efeito cómico, sem intenção de ofender. A liberdade de expressão dá-lhes esse direito inalienável. Um até distorceu o tema atacando o próprio jornal.
Entretanto, é evidente que muitas pessoas se ofenderam... em Setembro de 2005. E, assim como o jornal tem o direito de publicar, o público tem o direito de se ofender, de protestar e o jornal o direito de se desculpar. Tudo isto cabe dentro da liberdade de expressão, sem dramas. Os ofendidos tiveram também o direito de apresentar queixa. Até aqui, além de reacções emocionais, em Outubro, contra a publicação dos cartoons, a coisa não foi dramática.
De repente, jornais europeus começaram a republicar os cartoons, com o intuito de demonstrar a solidariedade com o jornal dinamarquês e defender a liberdade de expressão. A reacção intensa nos países muçulmanos, fez com que mais jornais se juntassem aquela “defesa dos valores democráticos”, o que provocou mais violência (não pela defesa dos valores democráticos, mas pela insistência na ofensa). Uma corrida para o fundo que lembra a infantilidade das crianças quando descobrem uma fraqueza noutra criança – matracam a fraqueza até, como avisam os pais, acabar mal.
Mas a infantilidade dos jornais europeus é além do mais uma infantilidade cobarde. A sua valorosa defesa dos nossos valores e demonstração de solidariedade pelo jornal dinamarquês só começou no dia seguinte a se ter encerrado a investigação criminal.
Ler também Eduardo Pitta
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Meu Querido Titanic, de Possidónio Cachapa
Apuros de Um Pessimista em Fuga, de Mário de Carvalho
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Complexidade e Contradição É que qualquer dia já nem do PREC a malta pode dizer mal :
«(...)já começa a cheirar a esturro o facto de todas as, vá lá, imperfeições que são apontadas à herança da abrilada serem devolvidas à procedência através da invocação da memória do Estado Novo, como se numa revolução só existisse o antes.»
Numa revolução não existe de facto somente o antes. E, no entanto, só se ouve falar do depois. Já que trazes o PREC à baila, com “receio” de não o poder vir a criticar, é curioso que não o faças, que não o culpes dos «actuais vícios da nossa sociedade». O PREC raramente é a razão de todas as nossas desgraças, a revolução essa sim!
Aliás o PREC terminou com o golpe de 25 de Novembro 1975 e nunca ouvi ninguém culpar o 25 de Novembro de ser a origem do nepotismo português.
Mas voltando ao depois, a bem ou a mal, da revolução de 25 de Abril saiu um regime democrático que dura há mais de 30 anos. Neste período fizeram-se seis revisões constitucionais e alternaram no poder, essencialmente, dois partidos centristas. Continuar a culpar uma revolução ocorrida há mais de 30 anos é desresponsabilizar os partidos que partilharam o poder. Os «vícios da nossa sociedade» combatem-se com acções, e quem tem o poder terá que ter a coragem de as tomar.
O problema, para tua, minha, nossa desgraça, é que os «actuais vícios da nossa sociedade» não se geraram espontaneamente com a revolução de 25 de Abril, nem com a de 25 de Novembro, nem com a de 28 de Maio, nem mesmo com a de 5 de Outubro ou a de 1 de Dezembro.
Ou seja, sempre que atribuíres culpas ao momento em que se muda um regime ouvirás falar do regime que o precedeu. O desafio seria escrever um comentário aos «actuais vícios da nossa sociedade» sem alusões ao 25 de Abril, revoluções e essas coisas.
Vá lá vais ver que descobrirás razões mais válidas e, talvez, conseguirás apreciar esse momento, sem as fantasias idílicas que nos atribuis, por aquilo que ele realmente significou.
Vá lá, vais ver que não custa nada.
Complexidade e Contradição É que qualquer dia já nem do PREC a malta pode dizer mal :
Esforcem-se por tentar comentar este post sem alusões a Salazar, Estados Novos, ditaduras e essas coisas. Vá lá, vão ver que não custa nada.
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Complexidade e Contradição | Entendam como entenderem:
«Acho que me expremi mal. Se eu aceito que a esquerda reconheça na direita um «ódio» qualquer ao 25 de Abril, [...]»
Não creio que te tenhas exprimido mal mas a tua frase seguinte é clara na vacuidade de sentido. Ao aceitares que a esquerda reconheça na direita um ódio ao 25 de Abril (sem vontade ou coragem para realmente o admitir) aparentas concordar comigo para me levar a concordar contigo...
Complexidade e Contradição | Entendam como entenderem:
«[...]terás de concordar que a reacção imediata da esquerda ao lembrar o Estado Novo sempre que se fala do 25 de Abril, não é mais correcta.»
... e, no entanto, discordo. Eu distingo duas coisas que tu talvez não concordes em separar (mas remeto-te uma vez mais para o exemplo do 5 de Outubro e da I República). A revolução e o regime que daí emergiu (ou tentou emergir) são duas coisas diferentes. Uma significa o fim do Estado Novo, a outra o início de um regime que evoluiu, entre várias atribulações e relativamente depressa, para um regime democrático. Daí não ser estranho que ao falar do 25 de Abril se fale do Estado Novo.
Complexidade e Contradição | Entendam como entenderem:
«Eu odeio o Estado Novo, mas isso não me impede de considerar que com "processo revolucionário" nasceram muitos dos actuais vícios da nossa sociedade.»
Basta ler autores de todas as épocas para perceber que a distribuição de favores não começou com o regime democrático, nem com o processo revolucionário, nem muito menos com a revolução de 25 de Abril.
Antero de Quental | Causas Da Decadência Dos Povos Peninsulares Nos Últimos Três Séculos.:
«Todas essas misérias íntimas reflectem-se fielmente na literatura. O que eram no século XVII a moral pública, as intrigas políticas, o nepotismo cortesão, o roubo audaz ou sub-reptício da riqueza pública, vê-se (e com todo o relevo duma pena sarcástica e inexorável) na Arte de Furtar do Padre António Vieira.»Afonso Costa:
«...o que tem sido a administração da monarquia portuguesa e dos seus governos desde que é rei o actual chefe do Estado; saibamos em que condições de «descalabro», de «favoritismo» e de «legalidade» se tem feito essa administração»
O mesmo acontece com a incompetência quer nas instituições públicas quer nas privadas. O mesmo acontece com o atraso.
Quanto à subsidio-dependência que tanto te preocupa, aponta-me um país que não a tenha, e naqueles que a têm a revolução responsável por tal "crime". É que em relação aos subsídios passa-se o que atribuis ao resto:
Complexidade e Contradição | Entendam como entenderem:
«Enfim, o resto são diferentes opiniões políticas.»
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Complexidade e Contradição | Entendam como entenderem:
(A revolução de Abril é) «outro evento meramente histórico na minha memória [...]que tem impedido Portugal de se aproximar dos níveis europeus de qualidade de vida»
Não percebo este ódio incondicional (especialmente dos jovens) da direita ao 25 de Abril, que é considerado fonte de todos os problemas de Portugal - como se nenhum outro país tivesse problemas semelhantes.
Apesar de ser para mim um evento meramente histórico, ainda valorizo muito a revolução de 1910, que não resultou num regime exemplar e que finalmente resultou no Estado Novo.
Complexidade e Contradição | Entendam como entenderem:
«O meu único interesse nesta eleição é que ela consiga [...] contribuir para o fim deste Estado filho de uma revolução popular, de subsídios e cunhas, de incompetência e atraso.»
Como explicar-te que tudo isto já existia antes do 25 de Abril? Como explicar-te que as cunhas não são uma invenção do 25 de Abril? Como explicar-te que não são um exclusivo da «tralha socialista»? Preciso lembrar-te que desde o 25 de Abril o PS e o PSD partilharam equilibradamente o poder?
Culpa os políticos que partilharam o poder, culpa a incompetência de tantos, culpa a falta de incitativa de muitos, e talvez até concorde contigo em muitos casos.
Mas não culpes uma revolução que acabou com 40 anos de opressão, tortura e perseguição, que acabou com um regime introvertido, conservador, complexado, e voltado eternamente para o passado.
Complexidade e Contradição | Entendam como entenderem:
«Quero um país mais europeu, liberal, descomplexado, voltado definitivamente para o futuro.»
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É uma margem irrisória mas é mais que suficiente e não lhe mais nem menos legitimidade que uma vitória por 60% – dá-lhe a mesma. E dá-lhe a mesma responsabilidade que os 60% dariam – a de ser o supremo representante dos portugueses.
Uma maioria dos portugueses que se deram ao trabalho de ir votar concluíram que ele seria o ideal para o cargo, bem hajam. Continuo a discordar, em situações passadas Cavaco interpretou o mandato maioritário como carta branca para impor a sua razão.
Continuo a discordar, mas estou disposto a ser surpreendido.
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Nesse dia seria, obviamente, possível a divulgação dos resultados, mas estariam proibidos comentários ou análises (inclusive na blogosfera). A CNE poderia até organizar, já na Segunda-feira à noite, a sequência dos comunicados oficiais dos candidatos e dos órgãos de soberania interessados. Mas só a partir de Terça às nove da manhã seria legal publicar opiniões.
É certo que um só dia poderia não ser suficiente para acalmar certos exaltados, mas pelo menos evitaríamos os atropelos que aumentam a exaltação.
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Venham mais cinco - Zeca Afonso
Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já
Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar
De espada à cinta, já crê que é rei d’aquém e além-mar
Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar
A gente ajuda, havemos de ser mais eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo o que eu levantei
A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustem
Só nesta rusga não há lugar prós filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar
Bem me diziam, bem me avisavam como era a lei
Na minha terra, quem trepa no coqueiro é o rei
A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustem
Só nesta rusga não há lugar prós filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar

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Sendo uma eleição pessoal, a pessoa que ocupa o lugar de presidente da república deve ser visto como uma pessoa inteligente, competente, diplomata, independente (não necessariamente apartidário) e bem intencionada.
Nesse aspecto o acto de Mário Soares entregar o cartão de militante do PS na sua primeira eleição, enquadra-se no espírito da época em que o presidente até ali independente e apartidário tinha acabado de criar um partido. Também então Soares se candidatou contra um candidato único da direita e um outro candidato do seu próprio partido.
Já Sampaio, que se candidatou contra Cavaco, recusou entregar o seu cartão. Não só porque se candidatava contra alguém altamente identificado com o PSD, mas porque a sua carreira na câmara de Lisboa provava as qualidades acima descritas (sendo a recente história da CML a prova da necessidade dessa qualidades para atingir o acordo entre a esquerda).
Nesta eleição surgem três candidatos que acumulam o papel de líder dos partidos que os apoiam. Se o presidente não tem que ser necessariamente apartidário, também não pode ser candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições. São candidaturas apenas relevantes ao nível partidário, cujo objectivo é fazer passar a visão governativa do partido para o país. A vantagem de o fazer numas eleições presidenciais é a ausência dos partidos centrais deste debate governativo, escondidos como estão por detrás dos seus candidatos. Nesse aspecto são candidaturas eficazes para elevar o perfil destes candidatos a primeiro-ministro.
Já Cavaco tenta passar como independente dos partidos - tendo até recusado aparecer num cartaz com Santana Lopes nas últimas eleições legislativas. Ver Cavaco como independente dos partidos, ou por outra, do PSD seria como ver o Pinto da Costa a candidatar-se a presidente da Liga para ser presidente de todos os clubes. Além disso Cavaco apresenta outros sinais preocupantes. Segundo ele próprio, "nunca se engana e raramente tem dúvidas" e acredita que "duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar". O que demonstra a facilidade de governar um país quando se tem um ser tão brilhante à frente.
Soares, entretanto, não resistiu ao chamamento [de quem?] e avançou. Há que admirar-se a sua energia e a sua determinação. Também há que admitir que se pensou que seria mais fácil; que, somente o peso do seu nome não foi suficiente para a vaga de fundo que obrigaria a uma segunda volta. Ora o facto de alguém que, com a vantagem de provas dadas e com o apoio do partido governamental detentor de maioria absoluta, é incapaz de garantir (pelo menos) uma segunda volta representa um clamoroso falhanço que debilitará um eventual mandato.
Surpreendentemente, Alegre manteve-se à tona d'água. Sem apoios partidários, conseguiu até manter-se a par do "imbatível" Soares. Sem ter que seguir uma linha partidária, e tratando de se distinguir dos oponentes, enveredou pela linha literário-poética de "a língua portuguesa é a minha pátria" e a sua essencial defesa - defesa da pátria ou da língua é que não percebi bem. Também recorreu ao perfil republicano e ao lema da revolução francesa. Tudo coisas que eu até valoro mas as quais, pelo excesso de insistência, podem levar a interpretações nacionalistas, por mais bacocas que sejam.
Decisão
Chegado o momento da decisão vejo-me perante 3 líderes partidários, 1 tecnocrata infalível, 1 monarca governamental e 1 republicano independente.
Não espantará ninguém que exclua à partida o gajo infalível, e que, por muita simpatia que sinta pelas suas pessoas e ideias, os chefes partidários também não recolham o meu voto.
Entre o monarca e o republicano, escolho o republicano; entre o governante e o tribuno, escolho o tribuno; entre o apoiado e o desapoiado, escolho o desapoiado; entre o advogado e o poeta, escolho o poeta; a verdade é esta:
voto Alegre,
mas não satisfeito.
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Apercebo-me, no entanto, que esta antipatia pelos partidos se baseia menos na sua própria razão de ser, do que nos próprios partidários – ou seja, o que estraga os partidos são os partidários. Chateia-me a lógica clubística em que a mão na bola do oponente é sempre penalty, enquanto a do próprio é casual.
Eu, apartidário, agnóstico e arquitecto me confesso.
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| 18 jan. 06 | diff. % nov. 05 | |
|---|---|---|
| Cavaco Silva | 27.32% | -2.58 |
| Mário Soares | 26.62% | -5.46 |
| Manuel Alegre | 16.78% | -0.07 |
| Francisco Louçã | 11.59% | 1.83 |
| Jerónimo de Sousa | 11.10% | 3.59 |
| Garcia Pereira | 6.60% | 2.69 |
Dados da pesquisa
As percentagens baseiam-se no número de páginas em português onde o nome exacto do candidato é mencionado, utilizando o motor de busca Google.
A última coluna é a diferença em pontos percentuais em relação a uma pesquisa semelhante feita em Novembro de 2005 em que Soares estava à frente (não publicada).
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Explicava-me um amigo que há dois tipos de pessoas: o deprimido, descontente consigo próprio; e o egocêntrico, cheio de si mesmo. Não tenho grandes dúvidas de que nenhum dos candidatos tenha grandes crises de auto-estima.
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Pim!
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Começou a falar-se de Alegre seriamente, e alguma esquerda começou a suar. Pensavam não ser um candidato suficientemente forte contra Cavaco. Por mim até me pareceu bem opor ao tecnocrata economista o tribuno poeta, e gosto de pensar que até ganharia.
Quando se começou a falar de Soares, alguns duvidaram que ele quisesse. Por mim pareceu-me óbvio que Soares, depois de ser o presidente de todos os portugueses, não resistiria a tornar-se o mais presidente de todos os portugueses. Com o valor acrescentado da possibilidade expirar antes de terminado o mandato - o que seria único e digno de um rei.
Os restantes candidatos não são irrelevantes mas inconsequentes. Três partidos tomaram a iniciativa de candidatar os seus líderes. Por muito que eu até ache que o presidente deve ser interveniente (se concordar comigo) e que eu concorde com alguns (ou muitos) dos seus pontos de vista, a candidatura de líderes partidários à presidência da república dá uma pobre ideia dos seus projectos políticos e da sua influência fora da sua actividade partidária.
Além disso imaginem que Garcia Pereira passava inesperadamente à segunda volta e, com o apoio da esquerda unida era eleito presidente da república. Quem é que o PCTP/MRPP apresentaria como candidato a primeiro-ministro nas próximas legislativas?
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Alguns dirão que estou desinformado, que não estou a par dos projectos presidenciais dos diferentes candidatos. Eu, pelo contrário, argumento que estou assim imune às tolices que se dizem acerca das tolices que se dizem em campanha.
Aliás não creio que sejam estes dois meses de algazarra que me farão mudar a opinião que tenho de Cavaco e, sendo assim, o voto em qualquer outro candidato é suficiente para contribuir para uma possível segunda volta.
Não queria no entanto deixar de contribuir para a algazarra.
(continua nos próximos dias)
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Do outro lado do mesmo mostrador, estavam vários e diferentes CD's e DVD's das "Histórias da Carochinha".
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RandomBlog | O dia mais longo de Dias Loureiro | Re-mataria:
[...] «Por volta das três da tarde, actuámos mesmo e as coisas compuseram-se», é como Dias Loureiro resume os confrontos entre manifestantes e polícia. No final, um rapaz ficou paraplégico, mas «as coisas podiam ter sido mais graves».
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Uma vitória esmagadora do PS, que chega à maioria absoluta desejada e não fica "refém" da esquerda. Já aqui argumentei contra este argumento. O meu único desejo é que o PS não se sinta refém do eleitorado do centro que alterna entre o PS e o PSD. Viva a esquerda!
Contrariando as expectativas de que a maioria absoluta esvaziaria a CDU e o BE, estes tem também melhorias significativas. Arrecadando para a esquerda uma maioria de 62.8% dos deputados! Viva a esquerda!
E eis um facto que terá passado despercebido. O PCTP/MRPP conseguiu mais quase 12000 (votos uma subida de 33%)! O POUS subiu 1667 votos (mais 42.7%)! Viva a esquerda!
... e assim se acabou o mono-tema.
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Não quero ser o grande defensor do BE mas a mim tudo isto parece uma carrada de patetices. Se não vejamos:
Que quer consolidar a sua base e por isso recusa em qualquer hipótese assumir um papel no governo.
A consolidação da sua base através da actuação na Assembleia da República parece-me um objectivo legítimo de um partido em crescimento. A recusa em assumir um papel governativo (se bem que não concorde totalmente com ela) poder-se-ia dizer que até é refrescante, mas é compreensível dado o discurso do PS em relação a esse cenário. It takes two to tango. No entanto, a participação no governo não é a única maneira de participar na governação. Estar na oposição não é necessariamente estar contra o governo, a participação activa e construtiva no acto legislativo é igualmente importante (e uma a que o BE nos habituou). Além disso, a confirmarem-se as sondagens de ontem, temos a oportunidade única de ter um parlamento 60% de esquerda.
Que defende ideias radicais que custarão milhões ao país se não o condenarem por várias gerações. É verdade que o BE utilizou os temas ditos fracturantes para catalizar o seu crescimento. Mas estes temas só são fracturantes porque fracturam os partidos tradicionais. A descriminalização das drogas leves e a despenalização do aborto não são batalhas do BE. A educação gratuita e o casamento de homossexuais não são batalhas do BE. São temas que são defendidos por grande parte dos eleitores progressistas e que os partidos tradicionais evitam na sua estratégia de cativar os eleitores mais conservadores. As reservas em relação a esta constituição europeia são válidas para muitos eleitores. É a intransigência (outra palavra muito utilizada a respeito do BE) dos partidos tradicionais que é radical e ridícula. Ou estão a favor desta, ou estão contra a União Europeia, é um slogan inadmissível em democracia. O défice democrático desta constituição é gritante e deveria preocupar-nos a todos. Mas há quem pense que se a constituição não avança a União Europeia acaba, que é melhor começar com uma qualquer e melhorá-la à medida que a formos utilizando. Uma constituição, a primeira constituição tem que ser o melhor esforço do momento, tem responder às exigências de hoje e estabelecer os princípios de amanhã. Uma constituição não se afina, ajusta-se conforme os tempos, mas não se afina.
Que só lhe interessam as suas ideias radicais das quais não vão ceder e assim gerarão a instabilidade que reconduzirá o PSD e a direita ao poder. Ora bem pôr o ónus da instabilidade no BE é das maiores falácias que se podem imaginar.
Pessoalmente, espero que em caso de maioria relativa, e se um governo do PS depender do BE, esses dois partidos possam chegar a um acordo. O BE tem que se aperceber que não será alternativa de governo tão cedo, se alguma vez lá chegar. Por isso, não pode ser intransigente nas suas propostas porque um governo do PS é o mais favorável interlocutor que irá encontrar no poder nos próximos tempos. O PS, por seu lado, não pode exigir ao BE contrapartidas que vão contra os princípios básicos que levaram à eleição dos seus deputados. Por muito que ambos se contradigam, tenho a certeza que há extensos campos onde os objectivos e os meios estão mais próximos do que aquilo que gostariam de admitir. Se isto não acontecer, nem uns nem outros merecem o nosso voto.
Por outro lado, é preciso não esquecer que não se pode pôr nas costas dos 7% que o BE poderá vir a representar a impossibilidade de avançar com as reformas do estado. Se estas não avançarem é porque 51% não chegaram a acordo, não porque 7% não concordaram. E se 51% dos representantes da população não chegarem a acordo é por as reformas não estarem bem fundamentadas ou por fracasso do diálogo. Em qualquer dos casos é a democracia em acção e é a única vantagem que um regime democrático tem sobre todos os outros.Ler texto completo:
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